Raimundo foi visitar seu falecido amigo Emanuel, num centro espírita de Nadinha Nadinha, no Estado de Nadão Nadão. Chegando ao local, se deparou com várias conversas entre vivos e mortos, alguns papos descontraídos, risadas, choros, segredos revelados e irritações. Muitas frases se repetiam nos murmúrios, do tipo “filho da puta comeu minha mulher!”, “então ele não é meu filho!” ou a mais ouvida “foi aquele filha da puta que te matou!”. Raimundo andou curioso por toda aquela multidão de vozes de vivos e ecos de sofridos, tentando achar algo que lhe desse a pista de onde achar o espírito de seu amigo Emanuel. Reparou que as palavras passavam por buracos, e que os visitantes tinham que enfiar seu ouvido na abertura para escutar o que vinha do outro lado. Reparou que os buracos estavam enfileirados em ordem alfabética, e procurando em meio a braços e ouvidos encontrou o nome de Emanuel em um buraco bem pequenininho. Perguntou a um rapaz ao lado o porquê daquela abertura ser tão minúscula:
- Seu amigo devia falar muito, ou falar muito alto. Deve ter sido narrador, locutor ou um puta de um tagarela.
Quase. Emanuel era vendedor de pamonha, dos melhores e seus gritos no alto-falante alcançavam toda a vizinhança, despertando a felicidade das crianças e a ira dos boêmios. Raimundo foi então de encontro ao buraco. Falou bem alto:
-Emanuel, cê ta ai?
Ninguém respondeu. Raimundo falou mais alto:
- Emanuel, responde abestado!
Nada. Raimundo então encheu os pulmões e gritou:
- Emanuel, responde desgraçado!!
Bem baixa, uma voz começou a soar. Raimundo enfiou o ouvido no buraco e escutou uma voz lá longe:
- q.qu..quee.
A voz foi ficando mais clara.
-Quem,mmm t..”
Derrepente, Raimundo ouviu claramente:
- Quem é o perrapadado que tá me chamando!
-Sou eu abestado, Raimundo.
-Raimundo, que Raimundo?, falou Emanuel.
-Raimundo diacho, teu amigo, cumpade, desde os tempos de escola.
-Ah sim, aquele que mijou na cara da professora.
Um rapaz olhou desconfiado para Raimundo, que deu um sorriso meio comedido. Do outro lado Emanuel falava mais alto e mais animado:
-Uahahahaha, ainda tá carcando aquelas cabritas da fazenda, uahaha, daqui a pouco vai ter um cabritos com a tua cara de besta dentro do curral.
Parecia que mais pessoas escutavam a conversa e olhavam sérias para Raimundo, que apenas sorria envergonhado.
- Dêxa de sê besta homem, sabe muito bem que isso era tudo mentira. Eu vim te visitar e você me faz essa desfeita.
-Desculpa cumpade, uahaha, era engraçado sua fama, uahahhaa.
-Como tá a vida de espírito?
-Vai indo né cumpade, é aquela coisa, não tenho mais carne, agora é só vapor.
-Mas tu num consegue voar?
-Ah sim, isso é coisa dos céus, voar, pode ver os abestados como formiguinhas lá embaixo.
- Ué homem, então você enxerga?Como?
-O burrinho, cê acha que fantasma não vê nada, como cê acha que ele vai assustar as pessoas?”
-Então tem fantasma assustando gente por aí?
-É claro fio, tem muito fantasma pai de família por aí.
-Tenho inveja de ocê, que agora voa. Eu tenho que agüentar esses engarrafamento por ai.
-Voar tem suas desvantagens Raimundo. Tem que aturá os peido dos espírito.
-Espírito peida? Tá maluco homem!
-É claro homem, mas nenhum desses doutô metido a besta fala dos peido dos espíritos quando vai falar do buraco na camada de orzônio. Muita alma solta pum e acaba com a camadinha, pobrezinha dela.
- Cê só pode tá brincando homem, que pum o que, eu nunca sinto nada.
-O Zé, pum de espírito só espírito cheira.
- Mas cumpade, como é esse troço de céu e inferno, você tá em algum deles?
-Graças a deus tenho passe livre, posso ir pro céu, pro inferno e também voar. Acho que foi bom largá a minha vida de cachaceiro por uns tempos e começá a ajudá aqueles veinhos trouxa da nossa terra.
-Ué Emanuel, eu nem sabia que tu era cachaceiro. Cachaceiro vai pro inferno então?
-É claro ô sonso, cachaça é quase um passaporte pro inferno sô. Mas se tu parar a tempo, até consegue não ir. Julgamento tá rígido cumpade, agora tu pode ir pra lá pra baixo por coisinha bem fresca, do tipo, do tipo...
-Tipo o que rapaz?
-Tipo, coçá o saco.
-Isso? Diacho, até da uma coçadinha só pra limpá um pouquinho.
- Limpá o que abestado, coçá é coisa feia. Tua mãe num te deu educação, não?
- Diacho, resmungou Raimundo.
- Diacho não, ti acho, ti acho, ti acho..., nada, dêxa rapaz. Mas, sabe Raimundo, o céu tá muito cheio né, a concorrência tá braba, todo mundo quer vir pra lá.
- E se peidar no elevador?
-Isso é inferno na certa, pode tê certeza.
- E o que tu faz no céu?
-Tomo uns arzinhos, azaro umas espíritas, umas almas, tem umas bem safadas! De vez em quando vou pro inferno curtí um calorzinho.
- E filme, tem alguma coisa?
-É claro cumpade, tem umas telinha de ar, dá pra vê uns filminho legal.
- Pelo menos, né?
-Tem uns legaizinhos de pacandaria, muirto filme de funerária. E tem filme de fantasma também, né?
- Tipo os poltergeist, caçador de fantasma...
-Nada fio, isso é tudo fantasma capitalista que se mudou pra Hollywood, nos States. Aqui o céu é comunista rapaz, todo mundo tem os direito igual, direito a uma nuvenzinha, um banho de sol.
- Que filme passa então?
- Passa filme tcheco, das Romênia, das Rússia. Os fantasma vermelho, sabe, vermelho, a cor dos comunista.
-Vigarista?
-Não, comunista, besta. Aqueles barbudo que querem as iguardade.
- Tipo Papai Noel? Ele é barbudo, veste vermelho e trata bem as criança pobrezinha.
- Dêxa, dêxa cumpade, vai estudar um pouco.
- Mas quando tivé uns temporal ou uns terremoto, dá uma forcinha, pra não pegá minha cidade.
- Terremoto os espírito gosta, vira uma rave aqui.
- O que?
- Rave, abestado, rave, festa, todo mundo dança, chacoalha com uns tremor.
- Desgraçado esses espírito, dançando enquanto outros sofrem aqui embaixo.
- Mas nóis sofre com ocês também, com esses aviões passando aqui. Desgraçado esses aviões, não me deixam dormir quando eu quero.
- Bom cumpade, já falamo muito. Acho que já vai dá minha hora. Ruim tu tá ai, nossa cidade jamais vai ter outro vendedor de pamonha como ocê.
- Eu tenho sardade de vendê pamonha cumpade, mas aqui no céu né, ninguém vai querê. E nem vão querê que eu grite com meu alto-falante, tarvêz no inferno, vô tentá vendê lá umas pamonhazinha pra seu Hitler, Mussolini, esses gringo gostam da nossa comida.
- Vai que se tu se dá bem lá. Se for lá manda um abraço pra meu cumadre, o seu Nezinho, ele deve tá lá coitado, mas bobo, foi fazê foto e virô capa de propaganda de camisinha. Ai, acho que é inferno né?
- Pois é, se achá ele lá eu mando lembrança.
- Falando nisso cumpade, tu num sente farta como espírito de....
-De que Raimundo?
-Cê sabe rapaz, de, aquilo...
-Aquilo o que rapaz!
- Aquilo, da camisinha.
-Ah sim, é, espírito pode faze sim, faz com uma outra espírita , com uma nuvenzinha, bom que elas são bem caladas.
- Que isso, com uma nuvem!
- É ué, quem não tem cão caça com uns gato.
- Mas cumpade, nuvem nem vida tem.
- Claro que tem coitada, mas eu prefiro umas espírita gostosa, com muito vapor e com umas curvinha na forma. Se quisé te mando umas, pra puxa teu pé na noite.
-Cruz credo, já sou casado cumpade, quero não.
- Vô indo então Emanuel, fica firme ai cumpade.
- Firme? Vida de espírita é num tem prercupação não, eu vô é voá mesmo. Manda uns abraço pros cumpade e pra minha viúva, a Mariazinha.
-Mando sim, adeus.
-Adeus Raimundo.
Raimundo tira o ouvido já quente do buraco e repara que o centro já está vazio, poucos ainda falam, e observa uma senhora que chora intensamente ao ouvir na abertura as palavras de algum espírito. Raimundo segue seu rumo, não tem tanto medo da morte agora, mas também não quer morrer, viver ainda tem suas vantagens.
ahuah caramba thor! vc escreve cada coisa, ficou mto bom!!
ResponderExcluirque viagemmmmmmmmmmmmm!!!!!!!!!!! adorei!!!!
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