quinta-feira, 14 de abril de 2011

E agora quer ser sapateiro

Paixão. Sempre tivemos alguma. Talvez uma paixão futebolística, ou nacionalista, regionalista, bairrista. Paixão talvez pela música, arte, ou pelo cachorro, jegue, cavalo, ovelha. Ou algo mais material, uma paixão pela aquela jóia daquela semana daquele mês daquele ano que foi maravilhoso.
Existem vários tipos de paixão, de dedicação para amar, mas com certeza a mais comum é a romântica. Aquela que inspira, que não te faz esquecer nem pelo maior fio de ouro que encontrar. Imaginar a quem você ama talvez seja um motivo para seguir em frente, mesmo que a pessoa amada nem conheça você ou nem tenha ouvido falar no seu nome.
Sinval era um rapaz tímido. Tímido demais, pouco falava, não tinha muitos amigos. Gostava era de trabalhar, era a distração que tinha na semana. Nos sábados e domingos o seu negócio era dos mais interessantes: televisão e computador,muito domingão do Faustão e Discovery Channel. Futebol não era sua praia, nenhum esporte para falar a verdade. A boêmia foi negada por Sinval, que preferia ficar perplexo com a tela da TV ao invés de consumir cervejas ou cantar bem alto num show de rock.
Sinval não sentia falta da noite e muito menos de um barzinho e de uma conversa. Gostava mais de ficar ali, assistindo mais um documentário sobre o golfinho que andava para trás e gostava de se relacionar com cavalos-marinhos. Que loucura Sinval! Não, para ele cada um com sua mania.
Nem todos têm o seu amor. Muito menos Sinval, que não tinha alguém para o acompanhar nas noites de Discovery e Zorra Total. Ou alguém que levasse pra fora de casa na noite de sábado, que lhe abraçasse, alguém para falar nos momentos necessários.
Na verdade, ninguém o acompanhava por fora, porque dentro da sua mente tinha alguma coisa que o distraia. Ela, sim, aquela que despertou o mais tímido hormônio do pobre Sinval. O nome? Larissa, nome um pouco inocente, uma menina que aparenta ser doce. E, é claro, bonita. Bonita não, bonitassa, linda, mais parecia uma deusa. Sinval foi logo se apaixonar por uma das mais belas garotas de seus bairro, cortejada por qualquer marmanjo que passasse. Como era linda aquela menina! O mesmo pensava Sinval.
                Durante as madrugadas, nosso protagonista varria todas as mídias sociais e não-sociais  atrás de fotos de sua amada. O olho vidrado na tela contemplava toda a forma de Larissa. Ver aquela  menina era a única coisa que deixava Sinval realmente feliz.
                Distraído? Sim e muito, Sinval era muito avoado. Vivia com a cabeça em outro lugar enquanto andava na rua. Quando mal percebia, já esbarrava em outra pessoa. Era o terror dos carregadores, sim, dos carregadores, seja o que for que levavam; papel, comida, livros, sempre esbarravam em Sinval e caía tudo o que é objeto no chão e tudo que é xingamento para o nosso protagonista.
                Uma nova manhã, e um novo descontentamento. Sinval estava puto da vida porque substituíram seu programa favorito no Discovery, sobre corrida de raposas, para transmitirem reality show de bichos-preguiça e luta de tartarugas, tartarugas mesmo, não ninjas. Sua irritação fez com que ele andasse mais distraído ainda pela rua e que mais uma vez fosse esbarrar. Caiu de bunda no chão e já foi pedindo desculpa, esperava mais um insulto. Logo, uma voz calma disse:
-“Tudo bem, não tem problema”
Sinval reconheceu rapidamente aquela voz, era dela, ela mesmo, sua amada. Olhou pro alto e viu aquela bela mulher sem nenhum defeito, que sorria, sorria. Larissa, essa sim, não xingava. Perplexo, Sinval quase não conseguia falar. Depois de muito tempo, disse pausadamente.
-Des,desculpe, não te olhei
O sorriso de Larissa fiou maior.
- Não tem problema, não foi nada, vou indo.
E Sinval olhou aquela menina tão bela, seguir pela rua. Como era especial aquele momento, conseguiu trocar palavras com Larissa.
Talvez o encontro tenha encorajado o rapaz, que depois de muito hesitar, resolveu  falar novamente com sua amada. E foi assim que tudo começou, conversa vai, papo vem, ambos foram se conhecendo cada vez melhor.
 Os encontro com Larissa passaram a ser mais freqüentes, e, faltava um passo para essa amizade virar namoro. Antes tímido, Sinval perdia toda a formalidade quando estava ao lado de Larissa, e com ela falava tudo o que vinha na cabeça. Os moradores do bairro se surpreendiam com os dois, nunca imaginariam que um rapaz tão quieto poderia conseguir o amor da menina mais bela das redondezas.
Larissa era tudo o que Sinval queria, a menina não tinha defeitos, além de ser extremamente bonita, era uma pessoa muito inteligente, culta, gente-fina. Era impossível achar alguma falha, só se estivesse muito bem escondida.
Depois de muito tempo na conversa, Sinval resolveu movimentar um pouco mais a relação, e convidou Larissa para uma boate. Ela aceita prontamente, sem hesitar, e eles marcam na danceteria mais próxima do bairro, “Crazydance” famosa pelas bebidas exóticas e música variada.  
Sinval estava receoso, com vergonha de soltar o esqueleto na pista de dança. Larissa não hesitou e seguiu a direção da música, dançando como uma profissional. Ela chamava a atenção de toda a boate, não só pela incrível beleza mas também pela perfeição de seu requebrado. Sinval, que não era tão bobo, não queria deixar aquela linda menina sozinha e correu para a pista afim de mostrar que também sabe dançar. Na verdade, não sabia, mandou qualquer coisa e Larissa fingiu gostar soltando uma risadinha.
Dançando juntos, os lábios foram se aproximando, mais e mais. O clima ia rolando aos olhares invejosos que o rodeavam. Sinval, antes o garoto tímido e desajeitado, conseguia beijar a boca da menina mais bela do pedaço. Os beijos se multiplicavam e na cabeça do casal já não se ouvia a música alta da boate, nem outra coisa do que pensar no encontro de ambos os lábios.
Naquela noite sim, Sinval tinha certeza que ia conseguir fazer amor com Larissa. A menina se antecipou a fala do rapaz, e disse com uma voz um pouco mais sacana:
-Para onde vamos depois daqui?
Surpreendido, Sinval, não sabia como responder, pois Larissa foi direto ao ponto. Então ele resolveu também arriscar
- Vamos para um motel, conheço um aqui bem perto
Esperava um tapa na cara, mas, novamente, uma surpresa, quando a bela moça respondeu:
-Só se for agora, safadinho...
Sinval, nervoso, segurou a mão de Larissa e seguiu em direção a saída da boate. Era a hora, vai levar para a cama aquela menina maravilhosa, de sorriso cativante, uma noite inesquecível para ele, e que ele quer que seja inesquecível para ela. O carro velho do pai era o veículo de transporte, mas esse fato passou despercebido pela harmonia entre os corpos sentados no banco da frente.
Larissa mais uma vez causava espanto. Antes, uma menina que parecia inocente, agora falava no ouvido de Sinval coisas muito pervertidas
“Pisa fundo garanhão”
E o rapaz já sabia onde ir, conhecia um motel perto, apesar de naquele mesmo dia considerar impossível estar vivendo esta situação, com uma linda menina que agora  falava safadezas.
Chegaram no motel apressados, e os hóspedes do local se espantavam com a beleza de Larissa, e ficavam com inveja de Sinval. O local não era muito luxuoso, mas também não estava caindo aos pedaços, era arrumadinho.
Passaram rápido pela recepção e chegaram ao quarto. Novamente beijos, agora longos, e que se repetiam até Larissa se jogar na cama. Sinval fica alucinado: uma garota com cara de deusa atirada na macia cama de um motel. Dia melhor em sua vida nunca veio. A moça começa a tirar a roupa, primeiro a camisa, em seguida o sutiã, depois veio a calça,, curiosamente, deixou por último o sapato. Chegou a hora, Sinval explodia de vontade de fazer amor com a mulher da sua vida. Larissa hesitava um pouco para tirar os sapatos, e o rapaz já estava ficando irritado, fazendo aquela cara de “vai logo”.Finalmente, a moça tira a proteção do pé e Sinval avança ferozmente em direção a sua presa. Vai, chega, perto, agora é o grande momento. Felicidade ao extremo, cresce mais e mais.
Derrepente, um cheiro espalha-se pelo recinto. Odor ruim, péssimo, chulé demoníaco exalado dos pés daquela moça antes perfeita. Odor devastador, veio como tapa na cara de Sinval, que não conseguia respirar e sofria com os olhos que lacrimejavam pelo tremendo mau estar causado pelo pé de Larissa. Pés que pareciam tão inocentes, mas que devem ter maltratado a vida de muitos pretendentes, principalmente em dias de muito suor. Pés assasinos, provavelmente sufocaram muitos moços hipnotizados pela beleza da menina. Desesperado,  o rapaz pega o travesseiro e tenta tapar o nariz, ato inútil, já que todo simples átomo do quarto estava dominado por um mofo destruidor.
Como? Era a pergunta que Sinval fazia. Como uma mulher daquela teria um defeito tão grande, pensou ele, quase desacordado. Larissa parecia envergonhada, queria se esconder, não sabia o que falar.
O que aconteceu com Sinval após aquela noite? Poucos sabem, dizem que tinha uma vontade de virar sapateiro, ou vender meias no centro da cidade, mas ninguém sabia o porquê, ele não dizia. Outros diziam que ele agora queria ser escritor e publicar um livro sobre os perigos de se ter uma mulher bonita. Mas uma coisa é certa, e todos sabem sobre ele: para fazer amor, só com mulher calçada.