Quem não queria ser a letra A? É a primeira de todas, e está presente em muitas e muitas palavras do português. Na brincadeira da forca, quando temos que descobrir qual é a resposta, a letra que todos dizem primeiro é o A. Este, muito metido, esbanja arrogância para as outras letras, gritando alta que é a primeira, e também a vogal nº 1, diz que é A de amado, de astuto, alma, alimento e assunto.
Lá, bem longe, estava triste o pobre do Z, de zero. Última letra, retardatária, afogava suas mágoas com o Y, penúltimo do alfabeto. Seu companheiro, ao invés de consolar, disse bem friamente:
- Sou uma das maravilhosas incógnitas matemáticas. Instigo os que resolvem os problemas, quero que me descubram, que achem o meu valor, mesmo que seja negativo sou aquilo que não foi encontrado. E tu, é o que, hein? Apenas a última letra, disse Y com sotaque, é um estrangeiro incorporado ao alfabeto português.
-Eu sou a letra que representa os números inteiros, e também posso ser incógnita, retrucou Z.
-O que me importa os números inteiros? Você é menos importante, também como incógnita, vem depois de mim e do X.
- Tão falando de que ai? exclamou o X.
- 24, posição 24, lalala, exclamam pequenas letras minúsculas que passam pelo X.
- Saiam daqui, infernais pequenas criaturas, vão procura um capslock pra aumentar vocês.
X sofria, era a letra na posição 24, que inferno.
-E tu num ri não em Z, chamo logo a Xuxa e te processo, afinal, o que seria da Xuxa sem o X, disse a letra, muito metida.
-O que fellow, você é só o X, não processa nada, afirmou o Y.
-Quem processa sou eu, diz o P.
P, este deveria acabar com qualquer tipo de conflito, é a inicial da Paz, do Perdão. Ao invés disso, veio a outra personalidade . Venho o porra, o puta que pariu, o processo, o peido, o palavrão.
Tudo volta a ficar sem palavras. Z então olha a imensidão de letras a sua frente, até chegar ao A. Todas são numeradas, e o Z, antes de 1990, era o número 23, depois, com a chegada de K, W e Y no alfabeto português, a última letra passou a ser a número 26.
-Sou muito mais brasileiro e muito mais aportuguesado do que esses novos integrantes que chegaram e ficaram na minha frente. Estou no Ziraldo, no Zé, no Zumbi dos Palmares. E esses novatos, entraram no ônibus e já querem sentar na janela? K então interrompe:
- Pare de falar asshole, lá de longe ouvi suas besteiras, estou cansado, muito nome para escrever, vocês brasileiros escrevem muito ok, ok, pra tudo, e não gosto de esse O colado comiga, muito redonda pra me gosto, não quero mais escutar nada sobre mim, disse K com um sotaque forte .
- Estou aqui muito antes de você, tu é de fora, tenha mais respeito, exclamou o Z.
-Olha que sou a letra do kill hein.
-Aqui é o M, de matar, e não K.
- Fuck You Man, sinto falta de uma palavrão como fuck, era muito escrito nos States, disse K.
- Ouvi meu nome? disse M.
- Nada não.
- Ninguém mente para o M, afinal de contas, eu sou a inicial da mentira, logo, ninguém a entende melhor do que eu. O que vocês resmungaram sobre mim ai?
- Disse que aqui matar é com M, e não com K, como tinha dito esse infeliz.
-Pois é, pobre de mim, foi nascer como inicial de matar, morrer, morte. E aqui money é com D de dinheiro, aquele desgraçado do D, roubou minha palavra. Fiquei pobre, e tenho duas corcovas para sustentar!
-Ueh, mas M é de milhão também, de mil.
-Pois é, mas ai vai tudo pro P de pobre, pro C de Carente, pro F de fudido.
- Mas tu é do miserável também ueh.
-Miserável é xingamento, e não um adjetivo prum coitado!
W interfere na conversa, e fala diretamente para o Z:
-Olha rapaz, estou aqui a dizer que não devias ter inveja de mim só porque estou na frente, olha o que acontece fellow, esse louco de Wellington causou uma estrago em meu reputação. Todos estão a pensar que eu sou uma psicopata, mas não sou, sou apenas uma V duplicada, disse a letra com sotaque acentuado.
-Olha rapaz, estou aqui a dizer que não devias ter inveja de mim só porque estou na frente, olha o que acontece fellow, esse louco de Wellington causou uma estrago em meu reputação. Todos estão a pensar que eu sou uma psicopata, mas não sou, sou apenas uma V duplicada, disse a letra com sotaque acentuado.
Z não respondeu, apenas olhou. De longe estava ele, o A, com uma pose de fodão. Pois é, nem o F podia ser foda como o A. O A nem olhava na cara dos outros, vagava pelo alfabeto, e depois voltava para o seu lugar, o primeiro da fila. Diziam que gostava de andar para chamar atenção, sim, a atenção, ou andar com ar de arrogante.
Z estava irritado pelo aumento das taxas de alfabetismo. Queria uma sociedade analfabeta, e assim, as letras não teriam importância, seriam iguais. Pensava num alfabeto igualitário, sem regalias, com igualdade, palavras para todos, sem discriminação. Viva ao analfabetismo!
É assustado pelo o S, que, muito do sacana, sacaneia:
-Para de pensar rapá, tu tem que mais é dormi, o zzzzzzzzzzzzz, uahahahha.
-Não enche!
- Não enche é? Que educadinho! Nem palavrão tem pra xingar, uahahaha.
- Tu também não tem!
-Claro que tenho, o que seria do vai se f...., caso não existisse o SE. Eu tenho suma importância, e tu, xinga com que? Zarolho? Uahhahaha.
- Zarpa daqui!
E sai rastejando a serpente S em busca de um sonho, ou serenata de sacanagem.
Z contempla as outras letras à frente, muitas badernas, novas palavras sendo formadas, vizinhos querendo posições dianteiras no alfabeto. U chora pelo trema que já não existe, amigo de tanta freqüência, que agora virou frequência. Outro lamento mais alto vem de longe, provavelmente dentre as primeiras dez primeiras posições, pensou Z.
Era sim, venho do H, que lamentava por ser uma letra muda, no português.
-Por que, meu alfabeto, por que sou tão mudo em terras tupiniquins? Lá nos States ou na terra da rainha tenho um som tão HIT, e aqui sou quieto como uma hesitação.
Lá de cima, fala alto o senhor alfabeto:
Lá de cima, fala alto o senhor alfabeto:
- Meu filho H, te mandei para a versão portuguesa com o intuito representar o silêncio, que às vezes pode ser a melhor resposta para qualquer outra palavra. O silêncio é um mal necessário meu filho, mas lembre que, tu és a letra do Homem, aquele que escreve e quem me criou.
- H não se conformou, continuou a se lamentar pela quietude. Z não quis comentar, mas dali viu que as letras tinham seus problemas, nenhuma podia ser perfeita. Ali perto do H, estava o J, coitado, início de Judas e de toda uma judiação.
- Pense bem H, talvez o alfabeto tenha razão, foram botar um som pra você e tu foi criar logo o Hitler, disse a última letra do alfabeto.
-Sai daqui, inferior das camadas de baixo, sou daqui de cima, tenha mais respeito.
- Inferior? Eu tenho som pelo menos.
H com uma face horrorosa, saiu de uma forma horrenda e foi se isolar como um herói sem honra. Z ganhava mais confiança, via que as letras tinham problemas, traumas, perseguições. Mas se você existe, então por algum motivo você esta lá. Nunca precisou de acentos ou de dígrafos para ser mais forte. E daí que era o último? Isso não o fazia pior que ninguém.
Um Z bem grande de Zorro aparece riscando, e ele se lembra do seu herói mais famoso, que fazia com a espada a forma bem grande de Z pelos locais que passava.
Lá de cima voltava a voz da sabedoria, o senhor alfabeto:
- Te coloquei por último Z, mas tu já fizeste um herói como Zorro, que inspira pelo menos dias melhores para os outros, não sabe o bem que faz um herói para as crianças. Não são todas as letras que possuem essa marca. Todas possuem problemas, achas que o A é perfeito? A também criou a arrogância, criou o pecado tolo da avareza e o xingamento que eu gosto muito: anta!
A abaixa a cabeça e sai de fininho. Toda pose foi embora.
- O senhor alfabeto fez uma pausa, e disse mais descontraído:
-Além do mais, mané, tu também é a letra de Zeus, o deus todo poderoso, para de reclamar ai meu filho.
Z ergue a cabeça e zarpa, vida de letra agora tem sentido.
H de Helena, Helenos, Humanidade, Honra, que legal essa viagem das letras!!!
ResponderExcluirNossa, isso lembra um texto meu de alguma forma.
ResponderExcluirMuito legal!