Alberto, adolescente, 16 anos, mais conhecido como Beto.
Menino normal, gosta de jogar bola, sair com os amigos. Estudar não é muito a
dele, não tira boas notas, escola é só para zoar, não mais que isso.
Um vício? Alguns, um ano atrás era
jogar videogame, como outro menino qualquer. Mas a fixação pela tela e pelo
controle passou agora para as comidas. Alimentar-se era um grande prazer, mais
especificamente, besteiras e guloseimas. Todo dia era bala, salgado, chocolate.
E não podia faltar bebida, que fosse doce. Refrigerante, mate, sucos não
naturais, qualquer coisa que tivesse muito açúcar tava bom. Pizza e hambúrguer?
Ótimo, melhor ainda com mate, ou, de preferência coca com gelo. Não tinha nada
melhor para Beto do que “Coke” com “ice cubes”. Quando era para comer besteira,
bebe besteira também. Hambúrguer com água? Jamais! Isso é loucura, onde já se
viu? Aliás, Alberto não gostava de H20.
Produtos light? Nunca! Porque vão
tirar açúcar de algo. Detestava produtos diet, light, o que fosse. Coca era
muito bom, mas tem que ser normal, nade de refrigerante anormal, deficiente,
opa, quer dizer, light, não doce. Gostava de tomar um banho de açúcar, como a
mãe de Beto se referia a essas bebidas gasosas.
Quando você pensa no seu dia
preferido, o que vem na cabeça? Sexta-feira talvez, dia da boêmia, ou sábado,
também boêmio e bom pra descansar pela tarde. Descansar? Que nada, o Beto quer
é comer, então terça-feira era seus dia favorito, dois por um na Domino´s,
pizza com refrigerante, quer coisa melhor que isso?!
E então o garoto segue com sua vida
desnaturada, de besteiras comidas e
provas de colégio mal-resolvidas. Inesperadamente a semana estava sendo um
pouco diferente, a mãe não tinha feito compras, então a cozinha estava escassa.
Eram dias tensos, exames estavam para vir, as notas não eram boas e Beto tinha
que se esforçar mais do que nunca, precisa ir bem, muito bem para não reprovar
no fim do ano. Para escapar um pouco dessas tensões, recorria ao seu grande
vício,mas agora não havia escape, já que a geladeira e dispensa estavam vazias.
Após o período de provas, acabaram as
tensões.
“-Vou comemorar no Mc Donald´s”,
pensou
Inesperadamente, um de seus amigos
veio e lhe disse:
-“ Ai veio, to reunindo um pessoal
para comer lá em casa, bora?”
Beto pensou, e concluiu que seria
ridículo deixar de estar com os amigos só para comer hambúrguer, no dia
seguinte ele ia no MC Donald´s.
Chegando lá, todos se reuniram na mesa
e veio a comida. Ansioso para ver o que teria no almoço, Alberto imaginou um
strogonoff ou bife, qualquer coisa carnívora, a fome já batia forte. Então
entrava na sala Sônia, empregada da casa com uma travessa e disse:
- “ Torta de jiló pros meninos!”
Beto sentiu um certo desconforto, não
era isso que ele esperava, fez um sorriso falso de alegria. Veio rapidamente um
arrependimento de não ter ido ao Mac Donald´s.
- “ Mas peraí, somos cinco, acho que
ela vai trazer mais alguma coisa, imaginou”
Sônia saiu da sala e Alberto esperava
que ela voltasse com mais um prato, que fosse carne, pelo amor de deus. E então
volta a empregada, com mais uma travessa, e diz:
- “Mais uma tortinha de jiló, sei que
todos os meninos vão gostar”
Felipe, um amigo, disse:
“ Obaa, adoro torta de jiló”
Agora Beto sentia raiva, de Felipe e
da empregada. A voz alegre de Sônia contrastava com a tristeza do garoto que ao
invés de comer seu amado hambúrguer com refrigerante teria que comer jiló,
puts!, pensou. E para beber, o que seria? Algo doce pelo menos. Por educação
ninguém falou de bebida, não seria legal dizer “po, vai ter bebida não?”.
Começaram o almoço e Alberto permanecia em silêncio e controlava sua raiva. Eis
que então vem Sônia, com uma jarra...... de suco de maçã light.
“Puts, maçã light, que merda! Como que
bebem isso no almoço? Almoço de
merda..”, pensou Alberto
- Tem coisa melhor para beber que um
suquinho, ne?”, disse Sônia. Em seguida dá uma catucada em Alberto que sorri
disfarçadamente
“Né não amor?” diz a empregada para
Beto
- “Claro, claro”, diz ele contido, a
vontade era de xingar. “Filha da p...”, pensou
E, no dia seguinte, chega no Mac
Donald´s, e o seu cartão não passa, foi recusado, não conseguiu pagar e então
não satisfez sua vontade....
Passa a semana e chega sábado, e a
casa continua escassa de comida. Talvez o “weekend” seja a salvação, pensa
Beto. Quem sabe uma saída com os pais para uma churrascaria, fica a pergunta. O
garoto espera alguma movimentação, será que rola algo, movido pela barriga,
sempre. Eis então que entra o pai no seu quarto e vem a esperança:
- Vamo almoça na casa da tia-avó hoje?
- “Vamo, respondeu prontamente Beto”.
Não tinha muita paciência com os parentes, mas quem sabe a saída não salvasse
seu estômago da seca! Surge uma esperança no ar, pensa o menino, conversa
sofrível mas alimentos perecíveis, yuhuu.
Chega na casa da tia-avó, o mesmo de
sempre, os mesmos parentes, as mesmas conversas e falas: “como cresceu esse
menino”, “como vai na escola?”,” ta estudioso?”, “que bonitinho, dizia a amiga
da tia-avó”, que tédio, pensava Beto, cadê a comida porra?
Um pouco longe, no braço do sofá, viu
um pote. Foi meio de fininho verificar o que era. Amendoim! Esse eu gosto,
pensou, e logo meteu a mão para pegar vários e ficar um pouco mais feliz. O
almoço demorava para sair, isso já irritava Beto, que tinha que esconder sua
insatisfação ouvindo a conversa chata dos parentes.
Então veio a esperada refeição, “minha
salvação”, pensou Beto. Finalmente, e, pra felicidade de todos, era um almoço
variado, com muitas carnes, frangos, batatas, molhos, comida de verdade para o
garoto que sofreu tanto na semana. Todos reunidos, e vamos ao que interessa.
Beto, esperou que uns quatro ou cinco se servissem para então colocar alimento
no parto, não queria passar uma impressão de selvagem que sai rapidamente na
frente de todo mundo. Pegou de tudo um pouco, e alegre, coloca sua refeição na
mesa.
Na primeira garfada um susto, um gosto
estranho, o que será? A comida parecia amarga, parecia, parecia.... sem sal!
“Puta que pariu, ta sem sal essa porra”, pensou Beto. Que m..., como que tá sem
sal?
Após 5 minutos, falou assim sua
tia-avó Eleonora:
-Gente, vocês vão me desculpar, ontem
fomos no médico do Saulo, e disseram que ele está com pressão alta, então
tivemos que dar uma manerada,mas, acho que assim, todos ficamos saudáveis, né?
Uma raiva forte atingiu o peito de
Beto, seria isso um castigo deus? A voz calma da senhora, que não tinha
consideração nenhuma pelo outros, o deixou irado. “O que fiz para merecer
isso?, pensou”
- Um brinde a saúde então, disse
Eleonora, e todos brindaram com sorrisos falsos, ninguém gosta de comida sem
sal.
Alberto brindou com cara feia, e sua
mãe do seu lado, fez uma cara de quem diz, para com malcriação! Irritado,
juntava os dentes para não falar:
- Velha filha da p...... “Além disso,
cadê as bebidas porra?”
Venho então da cozinha a empregada,
com duas garrafas de coca, mas o rotúlo, o rótulo, branco, puts, coca anormal!
Era a desgraça em forma de garrafa para Alberto, o que fez ele para merecer
isso?! Agora vai ter que engolir esse líquido com gosto de adoçante para tirar
da boca o dissabor de uma comida sem sal! A fúria da fúria veio de encontro ao
garoto, que se conteve e ficou quieto por todo o almoço, era a única forma de
protesto.
Cara fechada na volta para casa, sem
falar com mais ninguém, esse foi o resto do dia para Beto. Foi dormir cedo,
talvez um novo dia traga novas alegrias, bom, se trouxer algum sal já fica
melhor. Adormece e acorda na mesma mesa da tia-avó, ué, “o que faço aqui, estou
comendo essa comida e todos familiares me olham, tá sem sal de novo isso aqui,
e grito, que merda”!
“Todos me olham e riem, uahaha, vai
ter que comer, uahahhaa. Uma voz grave não sei de onde diz”:
- Mac donald´s deixa brocha,
uahahahhaa
Era a professora de ciências, do
primário, dizendo que a comida preferida
de Beto causava impotência. Estava ela ali junto com todos os outros,
adorava a comida sem sal, degustava com prazer toda a alimentação e ainda
dizia:
-“Faz bem pra saúde, tudo sem sal faz
bem pra saúde”
Alberto está no desespero, mais comida
sem sal, e minha professora de ciências dizendo tudo o que não quero, como,
não, puts, o que faço!
Acorda suado, 25 anos se passaram,
agora ele tem 41, está sua mulher ao lado, ela continua dormindo, ele sai do
quarto, vai em direção a cozinha, abre a geladeira. E, ali está, ela, a garrafa
de Coca-cola, normalzinha, bonitinha, ele a pega, abraça, e vê o sal, querido
sal, pega, espalha pela boca, e outra vez pega a garrafa de coca, a beija. E
dança pela casa, cheio de sal na mão e a embalagem de coca no braço.
A esposa então aparece, contempla a
cena e diz:
-“ Acho que você gosta tanto dela que
a prefere a mim né, porque por mim você não tem tesão. Ou será que foi outra
coisa?”