sábado, 21 de abril de 2012

Fúria da fúria



Alberto, adolescente, 16 anos, mais conhecido como Beto. Menino normal, gosta de jogar bola, sair com os amigos. Estudar não é muito a dele, não tira boas notas, escola é só para zoar, não mais que isso.
Um vício? Alguns, um ano atrás era jogar videogame, como outro menino qualquer. Mas a fixação pela tela e pelo controle passou agora para as comidas. Alimentar-se era um grande prazer, mais especificamente, besteiras e guloseimas. Todo dia era bala, salgado, chocolate. E não podia faltar bebida, que fosse doce. Refrigerante, mate, sucos não naturais, qualquer coisa que tivesse muito açúcar tava bom. Pizza e hambúrguer? Ótimo, melhor ainda com mate, ou, de preferência coca com gelo. Não tinha nada melhor para Beto do que “Coke” com “ice cubes”. Quando era para comer besteira, bebe besteira também. Hambúrguer com água? Jamais! Isso é loucura, onde já se viu? Aliás, Alberto não gostava de H20.
Produtos light? Nunca! Porque vão tirar açúcar de algo. Detestava produtos diet, light, o que fosse. Coca era muito bom, mas tem que ser normal, nade de refrigerante anormal, deficiente, opa, quer dizer, light, não doce. Gostava de tomar um banho de açúcar, como a mãe de Beto se referia a essas bebidas gasosas.
Quando você pensa no seu dia preferido, o que vem na cabeça? Sexta-feira talvez, dia da boêmia, ou sábado, também boêmio e bom pra descansar pela tarde. Descansar? Que nada, o Beto quer é comer, então terça-feira era seus dia favorito, dois por um na Domino´s, pizza com refrigerante, quer coisa melhor que isso?!
E então o garoto segue com sua vida desnaturada, de besteiras  comidas e provas de colégio mal-resolvidas. Inesperadamente a semana estava sendo um pouco diferente, a mãe não tinha feito compras, então a cozinha estava escassa. Eram dias tensos, exames estavam para vir, as notas não eram boas e Beto tinha que se esforçar mais do que nunca, precisa ir bem, muito bem para não reprovar no fim do ano. Para escapar um pouco dessas tensões, recorria ao seu grande vício,mas agora não havia escape, já que a geladeira e dispensa estavam vazias.
Após o período de provas, acabaram as tensões.
“-Vou comemorar no Mc Donald´s”, pensou
Inesperadamente, um de seus amigos veio e lhe disse:
-“ Ai veio, to reunindo um pessoal para comer lá em casa, bora?”
Beto pensou, e concluiu que seria ridículo deixar de estar com os amigos só para comer hambúrguer, no dia seguinte ele ia no MC Donald´s.
Chegando lá, todos se reuniram na mesa e veio a comida. Ansioso para ver o que teria no almoço, Alberto imaginou um strogonoff ou bife, qualquer coisa carnívora, a fome já batia forte. Então entrava na sala Sônia, empregada da casa com uma travessa e disse:
- “ Torta de jiló pros meninos!”
Beto sentiu um certo desconforto, não era isso que ele esperava, fez um sorriso falso de alegria. Veio rapidamente um arrependimento de não ter ido ao Mac Donald´s.
- “ Mas peraí, somos cinco, acho que ela vai trazer mais alguma coisa, imaginou”
Sônia saiu da sala e Alberto esperava que ela voltasse com mais um prato, que fosse carne, pelo amor de deus. E então volta a empregada, com mais uma travessa, e diz:
- “Mais uma tortinha de jiló, sei que todos os meninos vão gostar”
Felipe, um amigo, disse:
“ Obaa, adoro torta de jiló”
Agora Beto sentia raiva, de Felipe e da empregada. A voz alegre de Sônia contrastava com a tristeza do garoto que ao invés de comer seu amado hambúrguer com refrigerante teria que comer jiló, puts!, pensou. E para beber, o que seria? Algo doce pelo menos. Por educação ninguém falou de bebida, não seria legal dizer “po, vai ter bebida não?”. Começaram o almoço e Alberto permanecia em silêncio e controlava sua raiva. Eis que então vem Sônia, com uma jarra...... de suco de maçã light.
“Puts, maçã light, que merda! Como que bebem isso no almoço?  Almoço de merda..”, pensou Alberto
- Tem coisa melhor para beber que um suquinho, ne?”, disse Sônia. Em seguida dá uma catucada em Alberto que sorri disfarçadamente
“Né não amor?” diz a empregada para Beto
- “Claro, claro”, diz ele contido, a vontade era de xingar. “Filha da p...”, pensou
E, no dia seguinte, chega no Mac Donald´s, e o seu cartão não passa, foi recusado, não conseguiu pagar e então não satisfez sua vontade....
Passa a semana e chega sábado, e a casa continua escassa de comida. Talvez o “weekend” seja a salvação, pensa Beto. Quem sabe uma saída com os pais para uma churrascaria, fica a pergunta. O garoto espera alguma movimentação, será que rola algo, movido pela barriga, sempre. Eis então que entra o pai no seu quarto e vem a esperança:
- Vamo almoça na casa da tia-avó hoje?
- “Vamo, respondeu prontamente Beto”. Não tinha muita paciência com os parentes, mas quem sabe a saída não salvasse seu estômago da seca! Surge uma esperança no ar, pensa o menino, conversa sofrível mas alimentos perecíveis, yuhuu.
Chega na casa da tia-avó, o mesmo de sempre, os mesmos parentes, as mesmas conversas e falas: “como cresceu esse menino”, “como vai na escola?”,” ta estudioso?”, “que bonitinho, dizia a amiga da tia-avó”, que tédio, pensava Beto, cadê a comida porra?
Um pouco longe, no braço do sofá, viu um pote. Foi meio de fininho verificar o que era. Amendoim! Esse eu gosto, pensou, e logo meteu a mão para pegar vários e ficar um pouco mais feliz. O almoço demorava para sair, isso já irritava Beto, que tinha que esconder sua insatisfação ouvindo a conversa chata dos parentes.
Então veio a esperada refeição, “minha salvação”, pensou Beto. Finalmente, e, pra felicidade de todos, era um almoço variado, com muitas carnes, frangos, batatas, molhos, comida de verdade para o garoto que sofreu tanto na semana. Todos reunidos, e vamos ao que interessa. Beto, esperou que uns quatro ou cinco se servissem para então colocar alimento no parto, não queria passar uma impressão de selvagem que sai rapidamente na frente de todo mundo. Pegou de tudo um pouco, e alegre, coloca sua refeição na mesa.
Na primeira garfada um susto, um gosto estranho, o que será? A comida parecia amarga, parecia, parecia.... sem sal! “Puta que pariu, ta sem sal essa porra”, pensou Beto. Que m..., como que tá sem sal?
Após 5 minutos, falou assim sua tia-avó Eleonora:
-Gente, vocês vão me desculpar, ontem fomos no médico do Saulo, e disseram que ele está com pressão alta, então tivemos que dar uma manerada,mas, acho que assim, todos ficamos saudáveis, né?
Uma raiva forte atingiu o peito de Beto, seria isso um castigo deus? A voz calma da senhora, que não tinha consideração nenhuma pelo outros, o deixou irado. “O que fiz para merecer isso?, pensou”
- Um brinde a saúde então, disse Eleonora, e todos brindaram com sorrisos falsos, ninguém gosta de comida sem sal.
Alberto brindou com cara feia, e sua mãe do seu lado, fez uma cara de quem diz, para com malcriação! Irritado, juntava os dentes para não falar:
- Velha filha da p...... “Além disso, cadê as bebidas porra?”
Venho então da cozinha a empregada, com duas garrafas de coca, mas o rotúlo, o rótulo, branco, puts, coca anormal! Era a desgraça em forma de garrafa para Alberto, o que fez ele para merecer isso?! Agora vai ter que engolir esse líquido com gosto de adoçante para tirar da boca o dissabor de uma comida sem sal! A fúria da fúria veio de encontro ao garoto, que se conteve e ficou quieto por todo o almoço, era a única forma de protesto.
Cara fechada na volta para casa, sem falar com mais ninguém, esse foi o resto do dia para Beto. Foi dormir cedo, talvez um novo dia traga novas alegrias, bom, se trouxer algum sal já fica melhor. Adormece e acorda na mesma mesa da tia-avó, ué, “o que faço aqui, estou comendo essa comida e todos familiares me olham, tá sem sal de novo isso aqui, e grito, que merda”!
“Todos me olham e riem, uahaha, vai ter que comer, uahahhaa. Uma voz grave não sei de onde diz”:
- Mac donald´s deixa brocha, uahahahhaa
Era a professora de ciências, do primário, dizendo que a comida preferida  de Beto causava impotência. Estava ela ali junto com todos os outros, adorava a comida sem sal, degustava com prazer toda a alimentação e ainda dizia:
-“Faz bem pra saúde, tudo sem sal faz bem pra saúde”
Alberto está no desespero, mais comida sem sal, e minha professora de ciências dizendo tudo o que não quero, como, não, puts, o que faço!
Acorda suado, 25 anos se passaram, agora ele tem 41, está sua mulher ao lado, ela continua dormindo, ele sai do quarto, vai em direção a cozinha, abre a geladeira. E, ali está, ela, a garrafa de Coca-cola, normalzinha, bonitinha, ele a pega, abraça, e vê o sal, querido sal, pega, espalha pela boca, e outra vez pega a garrafa de coca, a beija. E dança pela casa, cheio de sal na mão e a embalagem de coca no braço.
A esposa então aparece, contempla a cena e diz:

-“ Acho que você gosta tanto dela que a prefere a mim né, porque por mim você não tem tesão. Ou será que foi outra coisa?”

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