domingo, 25 de setembro de 2016

Noites no ônibus



Um prazer que tenho que talvez outros considerem estranho é o de, quando voltar para casa de noite, voltar de ônibus vazio. Esse retorno nesse transporte é um bom momento para reflexão contínua, e é melhor com poucos passageiros para que nenhum zunido atrapalhe os pensamentos. Aí você pode estranhar eu dizer isso pois o ônibus tem um forte barulho quando se locomove. Porém, já sou tão acostumado com o som desse motor que nem ligo. Vou te dizer que, só para me distrair, gosto de lembrar de situações engraçadas, e até posso rir sozinho sem problemas, porque se não tem muita gente no veículo, poucos vão notar o que estou fazendo. Quando alguém, desacompanhado, ri na calçada, shopping ou em um ônibus cheio, mesmo que seja comedido, já é visto como estranho, um louco, alguém que você deve manter alguma distância. Eu não vejo dessa forma, acho que rir sozinho pode ser uma maneira de se entreter, é só não ser espalhafatoso para não atrapalhar ninguém.
Você pode argumentar que há outros meios de transporte como o metrô, táxi ou Uber, mas nenhum deles me traz a boa sensação do ônibus. No metrô, não se pode abrir a janela e não vai ter nenhuma vista bonita e nem vento bom na cara. Táxi e Uber são mais rápidos e confortáveis, mas, por estar só com o motorista, não tenho a privacidade que teria voltando em uma linha 409 com poucos passageiros.
Aos poucos, vamos descobrindo que a vida é feita de pequenos prazeres, que podem ser estranhos para os outros, mas, se para nós é prazer, devemos aproveitá-los, porque se não, fica difícil viver.


sábado, 17 de setembro de 2016

Tenores desbocados

                                                          Foto: uol.esporte.com.br


           Depois de muito tempo ausente, comecei novamente a frequentar jogos de futebol. A arquibancada continua a mesma. Muitos insultos, gritos, comemorações, piadas, risos, cantos, emoções, alegrias e tristezas.  Pessoas calmas em seu cotidiano se transformam quando torcem para o seu clube. Há o prazer de xingar, seja quem for. Se o time perder, sempre haverá um culpado: jogadores, árbitro ou treinador. Não se pode negar que há muita raiva emitida nos estádios, é o local onde o povo gosta de esbravejar.
Um dos fatos mais curiosos disso é a altura dos gritos. Xingamentos atingem agudos impressionantes, talvez mais do que Pavarotti. Será que este já falecido tenor italiano conseguiria gritar “filho da ...” em um agudo tão forte como um torcedor furioso do Botafogo?  Será que o famoso tenor espanhol Plácido Domingo conseguiria gritar um “toma no ...” como um raivoso torcedor do Flamengo? Acho que não, as arquibancadas brasileiras são formadoras de agudos insuperáveis de tenores desbocados.
Se um cantor do naipe baixo, com uma voz muito grave, entrasse no estádio e começasse a desferir xingamentos não seria a mesma coisa. A voz ficaria na arquibancada, e não atingiria os sofridos tímpanos dos bandeirinhas, os que mais sofrem pelos insultos. Quando se trata de alcance, os tenores das arquibancadas são insuperáveis, você que já foi em algum jogo de futebol deve notar que sempre há um deles na torcida.
O futebol cria personagens, como jogadores, juízes, técnicos, dirigentes e é claro, os torcedores. Há torcedores que se fantasiam, que criam músicas, que pulam, que dançam e os tenores, sempre desbocados, mas que sempre estarão ali, apoiando o seu clube.